Sou divino por dentro e por fora, e santifico tudo o que toco ou me toca,
O odor destas axilas é mais belo que uma oração,
Esta cabeça mais do que os templos, as bíblias e todos os credos.
Walt Whitman
O odor destas axilas é mais belo que uma oração,
Esta cabeça mais do que os templos, as bíblias e todos os credos.
Walt Whitman
Sentada nesta mesa de madeira branca, escrevo para a gerações vindouras, as memórias de uma mente que se sente intemporal.
A brisa morna faz deslizar os pensamentos, as palavras sucedem-se ao deleite morno do nada fazer. É como que um abraço quente da Natureza que nos esmaga.
As imagens tornam-se esbatidas e apenas conseguimos sorrir a quem por nós passa.
Estava Maria entregue a estes pensamentos, quando alguém ao de leve, como o vento abafado dessa sufocante tarde de verão, entra quase sem se dar conta na sua humilde cabana.
- A quem devo a honra? - pergunta ela, sem se virar para a porta, num tom jovial e simultaneamente grave.
- Vim ver como estavas.
- E quem sois?
E por quem me tomais?
- Por aquele que nunca me deixou sequer um momento só.
- Então porque perguntas?
- Porque queria ouvir-me em voz alta.
Por vezes quando permanecemos muito tempo sós, quando apenas conseguimos esboçar um sorriso através da pequena janela da nossa cabana a imaginários transeuntes, e ouvimos a nossa voz, nem nos reconhecemos nela. É desta forma que quando permaneço demasiado tempo em mim, me visito de tempos a tempos. Não vá a loucura tomar conta de todo o meu ser.
Continuou ela no seu monólogo em tinta.
[fotografia e texto de Maria Margarida, datado de 1999]
Relatório n.º 2
Relatório
n.º 2
Na
ponte.
O
vento corre por entre os meus cabelos.
Deixo
os olhos encherem-se de lágrimas.
É
difícil mantê-los abertos.
O
céu está azul.
O
rio corre calmo.
E
em breve estaremos junto ao mar.
Já
sinto o cheiro do sal entranhar-se na minha pele.
Quero
a areia nos ombros,
para
sempre dourados,
colada.
Voamos!
Voamos!
Não
há porquê não sorrir.
[Texto e Fotografia de Maria Margarida]
De onde vem
o
tempo
Desconheço a tinta
que corre
Só sei falar na
primeira pessoa
chamem-me o
que quiserem
Porque eu estou-me
nas tintas.
ESTOU-ME NAS TINTAS!
E muito mais podia
dizer.
Suspiro. No silêncio.
Lá fora o burburinho
da cidade
o coaxar dos
desemparados.
Não sei de onde vem
o tempo.
[fotografia e texto: Maria Margarida]
Sou
O fogo
sou
sem lume
e com
vento
sou o que
é contradição
fogo sem lume
ardente
que recusa
que se recusa
sem se saber
se fogo, se arde
sou o que sou sem ser
estrela cadente, incandescente
lugar comum
fora de moda
é o que sou de baton
de rimel e de sol
sou o que sou
dourado de azul
brilhante
eterno sorriso.
[fotografia e texto: Maria Margarida]
Náusea
Viajar com o comum
mortal tanto pode sufocar como inspirar aquela vontade indescritível de partir,
de não sair na estação devida, mas de prosseguir viagem.
O facto de comprar
bilhete e ao entrar na carruagem ter de partilhar o varão quente para me agarrar
e não cair, ou tentar encontrar um lugar vago nos degraus para o piso superior,
é algo que me rebela a alma. E quando finalmente surge um lugar vago e peço
cordialmente ao jovem engravatado "Dá-me licença?..." e este olha
para mim com ar aborrecido, pois tem de
parar a leitura d' A casa grande de Romariguães,- finges que encolhes as pernas quando devias
levantar-te e ajudar uma jovem senhora a sentar-se quando o comboio está em
andamento, aliás, deverias ter cedido o
teu lugar de fato amarrotado e colarinho amarelado à senhora de 60 anos que
viajou 30 minutos de pé. E tu! com o teu ar vazio de náusea ainda franzes o
sobrolho quando eu cordialmente e com um sorriso me dirijo a ti.
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