Sou divino por dentro e por fora, e santifico tudo o que toco ou me toca,
O odor destas axilas é mais belo que uma oração,
Esta cabeça mais do que os templos, as bíblias e todos os credos.

Walt Whitman

Náusea






Viajar com o comum mortal tanto pode sufocar como inspirar aquela vontade indescritível de partir, de não sair na estação devida, mas de prosseguir viagem.
O facto de comprar bilhete e ao entrar na carruagem ter de partilhar o varão quente para me agarrar e não cair, ou tentar encontrar um lugar vago nos degraus para o piso superior, é algo que me rebela a alma. E quando finalmente surge um lugar vago e peço cordialmente ao jovem engravatado "Dá-me licença?..." e este olha para mim com ar aborrecido,  pois tem de parar a leitura d' A casa grande de Romariguães,- finges que encolhes as pernas quando devias levantar-te e ajudar uma jovem senhora a sentar-se quando o comboio está em andamento, aliás,  deverias ter cedido o teu lugar de fato amarrotado e colarinho amarelado à senhora de 60 anos que viajou 30 minutos de pé. E tu! com o teu ar vazio de náusea ainda franzes o sobrolho quando eu cordialmente e com um sorriso me dirijo a ti.

Relatório nº 1




Toda a preparação tem o seu ritual. Faço tudo com calma. Mas por dentro sou explosão.

Exílio


http://www.youtube.com/watch?v=VfPwekJT62k&feature=mfu_in_order&list=UL


Oh lar! Doce lar! Onde ficaste tu, sossego

do meu amparo! Em que melancólica paisagem te

deixei adormecer?...

Como te transformei eu,

neste delírio extremo

de embriaguez

e finos véus?
Que povo mudo poderá saudar o seu rei no regresso do exílio?

O céu inundou o teu leito e tu nada soubeste criar.

1927

A manhã era calma e o céo era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva tinha os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra cançada e adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado esplendido - decoração triumphal com que se orna aguardando a visita de quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o hemispherio e fecundando tudo - o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...

Os meus Amores (Contos e Balladas) - Trindade Coelho
2ª edição, Lisboa, 1894

Fotografia do baú de Mª Margarida Capitão



A percepção da vida. Fogo que se sente arder. O mergulhar os pés num mar gelado. O respirar em sufoco quando se vê a miséria, quando se inala a solidão de quem grita em silêncio. O mastigar inevitável da passagem do tempo, o mastigar de nós próprios, a digestão dos nossos sonhos e das nossas vontades. Vão-se em vão. Ficam por se concretizar. Em silêncio. Em comunicação com o indizível. A percepção da vida que nos esmaga. Que nos devia esmagar em magnitude e beleza. Onde as encontrar...

Bela Princesa...


Tu, minha rainha,
ó senhora minha,
já não quererás
pensar em mim quando
o leão e o lobo
venham devorar-me
no cárcere fundo
cá onde me encontro,
nem quando saibas
que estou condenado
a não ver mais mundo,
ó senhora minha,
tu, minha rainha?

Poemas Ameríndios - Canções Quíchuas
Fotografia tirada por Mª Margarida Capitão

Quatro observadores



(...)
No meio deles, em baixo
tranquilo
dividido como um império
comum como compadres
maciço como uma mó
disperso como flocos
entrincheirado como uma fortaleza
aberto como as arenas
entre os observadores jaz o objecto.
(...)
Doze Nós numa Corda (poemas mudados para português por Herberto Helder)


Filmagem de Margarida