Sou divino por dentro e por fora, e santifico tudo o que toco ou me toca,
O odor destas axilas é mais belo que uma oração,
Esta cabeça mais do que os templos, as bíblias e todos os credos.

Walt Whitman

Relatório n.º 2


Relatório n.º 2


Na ponte.
O vento corre por entre os meus cabelos.
Deixo os olhos encherem-se de lágrimas.
É difícil mantê-los abertos.
O céu está azul.
O rio corre calmo.
E em breve estaremos junto ao mar.
Já sinto o cheiro do sal entranhar-se na minha pele.
Quero a areia nos ombros,
para sempre dourados,
colada.
Voamos!
Voamos!
Não há porquê não sorrir.

[Texto e Fotografia de Maria Margarida]
The crow


Doce pássaro
de alegre cantar
Retoma o teu voo
de volta ao mar

Planando sobre o azul

Respiras a eternidade
Daquele que vivendo
no seu tempo
desconhece a pressa.

[fotografia e texto Maria Margarida]
Raining in the suburbs ☔ 🍂 ⚡

De onde vem
o
tempo
Desconheço a tinta
     que corre
Só sei falar na
primeira pessoa
chamem-me o
     que quiserem
Porque eu estou-me
           nas tintas.
ESTOU-ME NAS TINTAS!

E muito mais podia
      dizer.

Suspiro. No silêncio.
Lá fora o burburinho
da cidade
      o coaxar dos
       desemparados.

Não sei de onde vem
        o tempo.

[fotografia e texto: Maria Margarida]
Just passing through

Sou

O fogo
sou
sem lume
e com
vento
sou o que

é contradição
fogo sem lume
ardente
que recusa
que se recusa
sem se saber
se fogo, se arde

sou o que sou sem ser

estrela cadente, incandescente
lugar comum
fora de moda
é o que sou de baton
de rimel e de sol
sou o que sou
dourado de azul
brilhante
eterno sorriso.

[fotografia e texto: Maria Margarida]

Dream a little dream ll 😍
 
Pé
 
Como se lá tivesse
estado
sim
no cimo da
montanha
 
com o pé
vi
no cimo da
montanha
vi
cheirei
no cimo sim
como se já
 
lá
tivesse estado
sim
lá
no cimo
com um pé posto
vi.
 
[fotografia e texto: Maria Margarida]

Náusea






Viajar com o comum mortal tanto pode sufocar como inspirar aquela vontade indescritível de partir, de não sair na estação devida, mas de prosseguir viagem.
O facto de comprar bilhete e ao entrar na carruagem ter de partilhar o varão quente para me agarrar e não cair, ou tentar encontrar um lugar vago nos degraus para o piso superior, é algo que me rebela a alma. E quando finalmente surge um lugar vago e peço cordialmente ao jovem engravatado "Dá-me licença?..." e este olha para mim com ar aborrecido,  pois tem de parar a leitura d' A casa grande de Romariguães,- finges que encolhes as pernas quando devias levantar-te e ajudar uma jovem senhora a sentar-se quando o comboio está em andamento, aliás,  deverias ter cedido o teu lugar de fato amarrotado e colarinho amarelado à senhora de 60 anos que viajou 30 minutos de pé. E tu! com o teu ar vazio de náusea ainda franzes o sobrolho quando eu cordialmente e com um sorriso me dirijo a ti.

Relatório nº 1




Toda a preparação tem o seu ritual. Faço tudo com calma. Mas por dentro sou explosão.