Sou divino por dentro e por fora, e santifico tudo o que toco ou me toca,
O odor destas axilas é mais belo que uma oração,
Esta cabeça mais do que os templos, as bíblias e todos os credos.

Walt Whitman
Just passing through

Sou

O fogo
sou
sem lume
e com
vento
sou o que

é contradição
fogo sem lume
ardente
que recusa
que se recusa
sem se saber
se fogo, se arde

sou o que sou sem ser

estrela cadente, incandescente
lugar comum
fora de moda
é o que sou de baton
de rimel e de sol
sou o que sou
dourado de azul
brilhante
eterno sorriso.

[fotografia e texto: Maria Margarida]

Dream a little dream ll 😍
 
Pé
 
Como se lá tivesse
estado
sim
no cimo da
montanha
 
com o pé
vi
no cimo da
montanha
vi
cheirei
no cimo sim
como se já
 
lá
tivesse estado
sim
lá
no cimo
com um pé posto
vi.
 
[fotografia e texto: Maria Margarida]

Náusea






Viajar com o comum mortal tanto pode sufocar como inspirar aquela vontade indescritível de partir, de não sair na estação devida, mas de prosseguir viagem.
O facto de comprar bilhete e ao entrar na carruagem ter de partilhar o varão quente para me agarrar e não cair, ou tentar encontrar um lugar vago nos degraus para o piso superior, é algo que me rebela a alma. E quando finalmente surge um lugar vago e peço cordialmente ao jovem engravatado "Dá-me licença?..." e este olha para mim com ar aborrecido,  pois tem de parar a leitura d' A casa grande de Romariguães,- finges que encolhes as pernas quando devias levantar-te e ajudar uma jovem senhora a sentar-se quando o comboio está em andamento, aliás,  deverias ter cedido o teu lugar de fato amarrotado e colarinho amarelado à senhora de 60 anos que viajou 30 minutos de pé. E tu! com o teu ar vazio de náusea ainda franzes o sobrolho quando eu cordialmente e com um sorriso me dirijo a ti.

Relatório nº 1




Toda a preparação tem o seu ritual. Faço tudo com calma. Mas por dentro sou explosão.

Exílio


http://www.youtube.com/watch?v=VfPwekJT62k&feature=mfu_in_order&list=UL


Oh lar! Doce lar! Onde ficaste tu, sossego

do meu amparo! Em que melancólica paisagem te

deixei adormecer?...

Como te transformei eu,

neste delírio extremo

de embriaguez

e finos véus?
Que povo mudo poderá saudar o seu rei no regresso do exílio?

O céu inundou o teu leito e tu nada soubeste criar.

1927

A manhã era calma e o céo era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrella d'alva tinha os ultimos bocejos para fechar de todo a palpebra cançada e adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado esplendido - decoração triumphal com que se orna aguardando a visita de quem tem de rolar pela eclyptica, alumiando o hemispherio e fecundando tudo - o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...

Os meus Amores (Contos e Balladas) - Trindade Coelho
2ª edição, Lisboa, 1894

Fotografia do baú de Mª Margarida Capitão



A percepção da vida. Fogo que se sente arder. O mergulhar os pés num mar gelado. O respirar em sufoco quando se vê a miséria, quando se inala a solidão de quem grita em silêncio. O mastigar inevitável da passagem do tempo, o mastigar de nós próprios, a digestão dos nossos sonhos e das nossas vontades. Vão-se em vão. Ficam por se concretizar. Em silêncio. Em comunicação com o indizível. A percepção da vida que nos esmaga. Que nos devia esmagar em magnitude e beleza. Onde as encontrar...